28 de abril de 2009

Capítulo 8

Adeus, Brasil

Na Brigadeiro Luiz Antônio ficava o Hotel Danúbio, na época um dos mais cotados da cidade. Lá funcionava a luxuosa boate African, onde à noite se apresentava o conjunto do pianista e acordeonista Aluisio Figueiredo. Uma turma boa compunha o grupo: o baixista Chocolate, o guitarrista Duílio, a crooner Andiara – irmã do cantor Cauby, do pianista Moacyr e do trompetista Araken Peixoto –, e o baterista Edgar Teixeira.

Em 1953, aos 26 anos, Edgar pregou um susto na família. Ao entrar na sala da casa onde morava com os pais e as irmãs, anunciou de supetão:

– Vou pra Bagdá.

Antes de ir às lagrimas, a mãe, dona Custódia, conseguiu perguntar:

– Você está louco?

Não estava, e José Modesto, o pai de Edgard, sabia disso. Ele mesmo passara boa parte da vida percorrendo fazendas na região de Ribeirão Preto, sempre sonhando com uma vida melhor. Só parou de perambular quando, finalmente, arranjou emprego de ajudante de mecânica numa fábrica da Mooca, em São Paulo. Olhou firmemente para Edgar:

– Vá se aventurar, meu filho.

Conselho acatado. Em dez dias Edgar providenciou passaporte e passagem, e no dia 6 de abril, acompanhado pelos pais e duas irmãs, desceu a Via Anchieta até o porto de Santos. Sem levar o instrumento, embarcou no navio Luiz Lumière com Rudy Wharton, pianista e acordeonista belga radicado em São Paulo; a cantora Sonia Batista, o baixista Johnny e Casé, que pouco antes vinha tocando no conjunto de Betinho. Rudy era o decano. Estava com 29 anos, oito a mais que Casé, o mais jovem do grupo, convidado a viajar no lugar do clarinetista Aimeé Wereck, que pensou, pensou, e achou mais sensato não ir para o Iraque sem nenhuma garantia. Isso mesmo: o quarteto seguiu sem contrato, informado apenas de que seria recebido por um certo Mr. Gregory, empresário. O combinado foi assim: cada um compraria a sua passagem por 11 mil cruzeiros. Em Bagdá seriam acertados os detalhes. Sabia-se apenas que o grupo iria se apresentar numa boate que funcionava junto com um restaurante.

De terno e bigodinho ralo, Casé chegou a Santos acompanhado pelos pais e pelo irmão Waltinho. Chorou muito antes de entrar e se acomodar no camarote que durante 12 dias dividiria com Johnny e Edgar. Rudy e Sonia teriam cada um o seu. Nunca eles haviam viajado nem tocado juntos. Passado o período de enjoamento em resposta às chacoalhadas do Lumière, o grupo entrou na rotina. Café às 8 da manhã, seguido de banho de sol à beira da piscina, almoço, ensaio, jantar, quase tudo regado a sucessivas taças de vinho Matheus rosé, servido por um garçom a quem se prometeu uma gorjeta ao término da travessia até Gênova.

A turma se mostrava animada: Rudy era brincalhão, Johnny esbanjava bom humor, Sônia irradiava simpatia, e Edgar, o mais desinibido dos cinco, fazia imitações e trocadilhos. Nada, porém, tirava de Casé mais que sorrisos discretos. O saxofonista levava o instrumento para a proa e fazia exercícios de frente para o mar. Para os ensaios, no salão do restaurante, Edgar usava a bateria do grupo italiano que se apresentava à noite. Diariamente, até o fim da tarde, o quinteto de Rudy ia montando o repertório que levaria a Bagdá: Feitiço da Vila, de Noel Rosa e Vadico, Palpite Infeliz e Com que roupa, ambas só de Noel, Chorinho em Aldeia, de Severino Araújo, Sonoroso, de K-Ximbinho, e standards gravados por Stan Keaton e Glenn Miller. O prefixo: At last, de Mack Gordon e Harry Warrende. À noite, canja durante o show dos italianos.



O Lumière ancorou em Gênova dia 21 de abril. Os músicos brasileiros embarcaram imediatamente num trem para Roma. Lá permaneceram durante três dias, tempo suficiente para Casé remeter à família um postal sem texto – apenas a assinatura e a data, 23/4/53 -, e para Edgar comprar uma bateria Alloy prateada, com um tom de 13 polegadas, um tambor de 16, dois pratos de baixa qualidade e cinco pares de baqueta. Ainda houve tempo para passeios a pontos turísticos até o embarque para Nápoles, a bordo do iate Malek Fuad. De lá o grupo tomou um ônibus com bagageiro no teto. Encaixou os instrumentos no interior do veículo e seguiu para Beirute, Damasco e, finalmente, Bagdá. Viagem difícil, em que os poucos passageiros balançaram em cadeiras duras a 50 quilômetros por hora, olhando para o deserto durante um dia e meio.

Eis que o ônibus toma uma avenida que rasga o deserto por cerca de 30 quilômetros. Sob um sol de derreter pirâmides, azedos de suor, os estrangeiros descobrem: estão na Rachid Street. No meio da tarde, o ônibus para a poucos metros da boate em que os músicos estreariam à noite, em New Bagdá. Um homem sorridente, vestindo terno, aguarda os brasileiros. É Mr. Gregory, o contratante, funcionário da boate. Conversa com Rudy e Johnny – os únicos do grupo que falavam inglês -, estica o contrato de seis meses de duração e conduz os cinco até o local onde ficariam hospedados, bem perto dali. Uma casa grande, com jardim.

O pessoal descansa, toma um banho e, poucas horas depois, abre o show com At Last. Casa lotada. Sônia, a cantora de pele morena coberta por traje à Carmen Miranda, logo arranca suspiros da plateia. Aplausos em cena aberta quando dança samba-quadradinho com Edgard. Ele, a exemplo dos outros músicos, veste calça preta e uma camisa vermelha de estampa florida que, dia sim, dia não, trocará por uma listrada.

Nada mal para uma estreia. Prenuncia-se uma temporada de sucesso e dinheiro farto. Na verdade, nem haverá onde gastar o cachê diário de dez dinares, equivalente a dez dólares. Tant€o assim que, com pouco tempo de trabalho, Edgard embrulhou 100 dólares em papel carbono, enfiou o pacote num envelope e o despachou para a Rua Madre de Deus, Mooca, São Paulo. Presente para a família.

Era o começo dos dias que prometiam altas emoções, distribuídas ao longo de uma rotina mansa. Das 20h à meia-noite, show ao ar livre na boate instalada ao lado do restaurante onde eram feitas as refeições. De dia, tempo livre para os passeios, num táxi dirigido por um homem solícito e falante, que não se furtava a mostrar aos brasileiros as atrações de Bagdá e suas imediações. Mesquitas suntuosas, o Rio Tigre, as ruínas da Babilônia, um harém, avistados pelos brasileiros surpresos, à exceção de Casé. Quieto ia, quieto ficava. Nenhuma palavra a respeito daquelas imagens.

Uma, duas semanas. Logo os passeios diurnos, aquela imensidão, aquele banho de história, tudo começou a cansar. Trocou-se então a rotina turística pela doméstica. O quinteto resolveu passar dia após dia recolhido em casa. Sair, só para almoçar no restaurante ao lado da boate. Carneiro no almoço, carneiro no jantar, carneiro cozido no ar que se respirava pela cidade inteira. Deu saudade até da pizza experimentada em Nápoles, a mesma que merecera um comentário desdenhoso de Edgar:

– No Brás é melhor – disse ele, lembrando-se do bairro paulistano vizinho à Mooca.

Para fugir do cardápio imutável, a saída foi recorrer ao bife com batata frita. Aí, começou a dar saudade do Brasil. Em casa, apesar da presença de Sônia – uma mulher bonita, alegre, sensual, avançada – e do bom humor de Johnny, abateu-se sobre o grupo uma mistura de tédio e tristeza. Um ramerrão propício à mudez de Casé, que passava o tempo ouvindo Charlie Parker numa vitrola portátil, de preferência sozinho. “Deixa eu ouvir isso aqui”, resmungava quando alguém se aproximava.

Economia, petróleo, disputas políticas, rixas regionais - os brasileiros nem levavam em conta o que se passava em volta. Ficavam o dia inteiro enclausurados, e, nas escapadas que davam esporadicamente, dividiam-se: Edgar com Casé, Rudy com Johnny. Sônia não se juntava a nenhuma das duplas. Saía com o namorado, um engenheiro americano dos seus 35 anos, a respeito de quem pouco se sabia além de que era funcionário de uma companhia petrolífera. Aparentava ser um bom sujeito. E, evidente, estava apaixonado por Sônia. Mas não era o único a ter-se encantado com a morena, segundo Mr. Gregory e o porteiro da boate disseram ao pé do ouvido dos músicos.

A informação foi transmitida em tom de mistério. Havia medo na voz deles, quando balbuciaram a Rudy a síntese do perigo que rondava: entre os nobres e assíduos frequentadores da boate havia um homem influente e temido, um sheik. Pois, entre arroubos de desejo por Sônia, ele havia determinado o rapto da cantora. Foi o fim definitivo do fastio que tomara conta dos músicos naquele quarto mês de Iraque.

No dia seguinte, segunda-feira de folga, acompanhada por Rudy, Johnny, Casé e Edgar, Sônia espreme-se no táxi que ela e os músicos utilizavam habitualmente. Todos descem no aeroporto de Bagdá. Aparentemente fazem um passeio, mas deixam transparecer uma estranha inquietação, que a cantora disfarça por trás de amplos óculos escuros. Na bolsa dela, uma passagem para o Rio de Janeiro, oferecida pelo namorado americano. Após a operação, que tem o apoio do cônsul da Bélgica, a quem Rudhi recorrera, Sônia desaparece do Iraque. Os músicos, não: voltam para casa aliviados, mas nem há tempo para comemorar a bem-sucedida fuga da colega. Quatro policiais armados com fuzis batem à porta e os levam a pé até uma delegacia. Durante meia hora pratica-se uma sessão de tortura psicológica, com advertências e ameaças, sob a alegação de que os brasileiros não poderiam deixar o país antes de cumprir o sexto mês de contrato.

Quem teria acionado a polícia? O motorista, que se mostrava tão solidário? Mr. Gregory, arrependido de ter feito o alerta e com receio de perder o grupo que garantia a temporada vitoriosa? Nunca os músicos conseguiram descobrir. O fato é que, sem Sônia, voltaram ao trabalho, agora fazendo música instrumental. De novo, um sucesso tão grande que a casa lhes propôs a prorrogação do contrato por mais três meses. Inicialmente o quarteto chegou a balançar. Talvez fosse interessante ficar e selecionar um repertório mais jazzístico, mais solto, um prato cheio para Casé, que já andava reclamando do som, burocrático demais para o seu gosto. E o dia a dia? Quanto a isso o grupo era unânime: a emoção mais forte vinha havia semanas se resumindo a jogar os colchões na sacada da casa para esperar uma providencial brisa noturna ou avistar uma nuvem de gafanhotos.

A renovação de contrato talvez pudesse compensar a chatice do cotidiano. Quem sabe agora eles aceitariam o convite para tocar jazz na casa do jovem rei Faiçal, cliente da boate e admirador declarado dos brasileiros?

***

Mais um show espetacular no segundo dia sem Sônia. No terceiro, novamente com a ajuda do cônsul da Bélgica, os quatro músicos embarcaram num DC-3 rumo a Beirute. Ficaram por lá durante uma semana, chegaram a tocar num cabaré, mas a situação de precariedade levou Rudy a fazer um convite imediatamente aceito pelos parceiros: “Vamos pra casa?”. Pegaram um navio turco, viajaram de quarta classe e desembarcaram em Bruxelas.

Ficaram um mês por lá. A mãe de Rudy morava em Charleroy, cidade produtora de carvão, a uma hora de Bruxelas em viagem de trem. A anfitriã era dona de um coração enorme e de uma casa nem tanto. Casé, Edgard e Johnny alojaram-se num mesmo quarto, que dispunha de só uma cama. Dormiam juntos, com as cabeças e os pés desencontrados.

Em Bruxelas, deram canjas suculentas. Numa delas, na Caverna do Bebop, após um show de Gerry Mulligan, voltou o conjunto da casa. Casé pediu ao saxofonista para tocar. “Só um pouquinho”, respondeu o colega. Entregou-lhe o sax alto protegido por uma capa marrom, de couro, e sentou-se para ouvir. Depois, não teve coragem de retornar ao palco.

Em 30 de novembro de 53, Casé enviou para casa o primeiro de uma série de cartões-postais, todos com pouca ou nenhum informação. No verso de uma foto da Gran Place de Bruxelas, ele deseja “muitas felicidades” a dona Isabel e completa: “Eu queria que estivesse aqui para ver a maravilha que é esta praça à noite”.

O quarteto de Rudy chegou a gravar um disco em 78 rotações – de um lado, Feitiço da Vila, com Casé ao clarinete; do outro, At Last. Apresentou-se em casas noturnas, despertou interesse dos músicos locais. Para se estabelecer, porém, ressentiu-se da falta de uma cantora, condição indispensável para a aceitação de brasileiros no exterior, na fase em que Hollywood esparramava pelo mundo os balangandãs de Carmen Miranda. Um dia, Casé subitamente comunicou aos colegas:

– Querem saber de uma coisa? Vou voltar pro Brasil.

Rudy ficou, e mais tarde mudou-se para Los Angeles. Edgar e Johnny juntaram-se a Casé e seguiram para Londres, onde se separaram. Johnny, assim como a cantora Sônia Batista, nunca mais deu notícia. Edgar ficou um pouco mais, retornou ao Brasil em 1954 para uma pausa de oito meses e novamente foi para a Europa, desta vez com o grupo da cantora Elda Mayda. Um ano depois, montou em Copenhagen o Modern Tropical Quintet, casou-se com a cantora holandesa Sara e durante nove anos viajou por vários países. O Modern chegou ao Brasil em 1964 e logo se tornou, com repertório e arranjos vocais sofisticados, um dos mais importantes conjuntos de baile do país.

Em São Paulo, Edgar perguntava por Casé. “Está por aí”, respondiam os músicos. Não se viram até 1973, quando o Modern foi revezar-se com a orquestra Clóvis Elly no Clube Homs.

– Tudo bem, Casé? – perguntou o baterista, vinte anos depois da aventura no Iraque.

– Oi, Edgar. Tudo bem.

Mais um dedinho de prosa, e só. Nenhum comentário sobre Bagdá, nenhuma frase sobre a viagem feita por ambos a Londres. Casé continuava falando só o indispensável. Exatamente como fazia duas décadas antes, quando da Europa passou a mandar cartões-postais à família. A partir de Bruxelas, em textos sempre muito enxutos, manteve pais e irmãos informados sobre o itinerário que percorreria na volta ao Brasil, feita com dinheiro de um empréstimo obtido com Elly, ex-parceiro de Clóvis, à família Godinho.


Foi um retorno lento. Em 18 de janeiro de 1954 contou que estava em Eastbourne, e em quatro dias seguiria para Lisboa. Foi mais prolixo que no postal anterior, remetido sem local nem data, apenas para desejar Feliz Natal e fornecer uma pista: “Estou na Inglaterra”. Em 26 de janeiro, de Paris, escreveu de novo, mostrando a Rue de Rivoli. “Sem babar”, brinca com os irmãos, a quem endereça a correspondência. “Não mando um deste para cada um porque é muito caro e estou duro”, justifica-se. Novo cartão chega ao Cambuci, com data de 2 de fevereiro. Vem de Lisboa, mas foi comprado e redigido em Paris uma semana antes. A explicação: “Querida mãe, hoje estou em Paris, de passagem para Lisboa, e como não tenho `gaita´ enviarei este quando lá chegar. Espero carta.” É de 10 de fevereiro o postal ilustrado com foto da Torre de Belém em que Casé revela o plano para o desfecho da viagem: “Dia 14 ou 15 passarei um telegrama dizendo que está tudo bem ou não. ‘Tudo azul’ dirá então que eu embarquei, e ‘embarque cancelado’ quer dizer que não embarquei.” Finalmente vem a confirmação da volta, contida não em telegrama, mas num outro cartão-postal remetido das Ilhas Canárias: “Chegarei dia 25 em Santos pelo Corrientes”.

Enquanto não se dava o desfecho da viagem, a casa dos Godinhos na rua Lavapés mantinha a rotina coordenada por dona Isabel, mãe superprotetora, doce criatura que, se tirada do sério, expunha sua face rigorosa. O marido vivia viajando. Como ensaiador de orquestra, circulava por cidades do interior paulista para temporadas de alguns meses. Nunca, em casa, deixou escapar indícios de romances paralelos. Mas certa noite, sem grandes explicações, Isabel resolveu dar uma incerta no Pixoxó, cabaré paulistano em que ele estava trabalhando. Avistou um homem baixo, encorpado e de barba cerrada. Era ele, trocando afagos com uma morena.

– Quem é essa aí? – perguntou, os olhos claros faiscando.

A mulher não teve tempo de se apresentar.

– Te corto inteirinha – ameaçou Isabel, que abreviou a história com a ajuda de alguns catiripapos. A caminho de casa, Godinho tentou argumentar:

– Mas, Belinha, são elas que vêm atrás de mim.

O casamento se manteve firme até a morte de Godinho, em julho de 1968, causada por problemas renais.


2 comentários:

Juan Thaly disse...

Prezado amigo, adorei seu texto, até porque sou neto de Sonia Batista. Adorei ler algo sobre uma das inúmeras aventuras vividas por uma das mulheres mais fascinantes que pude ter comigo! Obrigado!

Ademar disse...

Fernando, muito obrigado! Sou Ademar Souza, filho da Sonia Batista, que faleceu recentemente. Ela nos contou que foi convidada pelo Xá Reza Pahlevi para cantar no seu palácio, mas não contou sobre o quase sequestro. Tenho fotos dela, linda. Se lhe interessar, posso mandar.

 
`