28 de abril de 2009

Capítulo 17

Um chefe atípico

Era com entusiasmo que o trompetista João Godoy falava sobre Casé a dois sobrinhos de Bauru. Adylson e Amilton enveredavam pela música, estudando piano e acordeom. No começo da década de 1960, os dois irmãos mudaram-se com a família para São Paulo. No ano seguinte, sem rodeios, João Godoy disse uma frase que deixou Adylson aturdido:

– O Casé está precisando de uns músicos. Indiquei você.

Na infância, Adylson e Amilton haviam se apresentado para o saxofonista e Maciel Maluco, num encontro promovido pelo tio, em Bauru. Mas agora era diferente. “Tocar com o meu ídolo?”, tremeu o rapaz. Isso mesmo: estava nascendo Casé e Seu Conjunto , para fazer bailes e shows vendidos pelo empresário Waldomiro Saad. Pouco depois estavam os dois irmãos diante de Casé, que trazia uns discos de jazz debaixo do braço. “Vamos começar depois do Carnaval”, avisou.

Alguns dias depois, batem à porta do baixista Nilton de Siqueira Campos, no bairro de Santana. Ao abri-la, ele avista os irmãos Godoy ao lado da mítica figura do saxofonista. Nilton já o conhecia, já o havia acompanhado em canjas no Teteia, quando integrava o grupo de Kuntz Neegle. Nunca haviam conversado, e sem mais delongas lhe foi feito o convite para integrar o conjunto. “Ganhei na loteria”, pensou Nilton, antes da resposta dada sem titubeios: “É pra já”.

Passado o Carnaval, compareceram ao Cambuci todos os convidados de Casé. Além dos Godoy e de Nilton, os três irmãos Alcântara - o trompetista Maguinho, o saxofonista Carlos Alberto e o baterista Ratinho, junto com Flamarion (trombone) e Zaguinho (barítono). A cantora, loura, graciosa e magrinha, era Nívea - para os músicos, Olívia Palito.

Ensaiar não bastava; era preciso pensar no uniforme. Isso se resolveu rapidamente: foram todos à loja Pirani da avenida Celso Garcia, no Brás, e compraram calça preta, camisa volta ao mundo branca, blazer gelo - menos Casé, que ficou com um cinza-chumbo. Tempos depois, o guarda-roupa foi renovado. Entrou um modelo vestido pelo trompetista Kenny Dorham numa foto publicada pela Down Beat, que um alfaiate judeu da Praça Silvio Romero se encarregou de confeccionar: calça azul, paletó azul claro, com lapela e punhos em cetim azul escuro.


A seleção de músicos e de repertório, os arranjos, o uniforme, tudo dava posição de destaque. A chegada de Casé e Seu Conjunto às cidades do interior provocava expectativa, despertava atenção até de prefeitos, que em certas ocasiões os aguardavam em companhia dos presidentes dos clubes. A nada disso, porém, o empresário Saad parecia dar importância. Reservava hoteis ruins e, para as viagens, cedia uma Chevrolet 1946, com as paredes laterais feitas de madeira. Ótima para servir de campo para batalhas de farinha e ovo, tinha lá seus inconvenientes: pifava com regularidade e não obrigatoriamente protegia os passageiros da chuva. Numa viagem entre São Paulo e Tambaú, deixou encharcada a bateria de Ratinho. Fez por merecer o apelido de Perua Morfética, esturricada após um baile em Aguaí. Adylson aproveitou um vazamento de gasolina e riscou o fósforo. Saad precisou mandar outro carro apanhar os músicos.

Nas viagens, Casé preferia ir ao lado do motorista, dividindo a atenção entre a estrada e a paisagem, atento e, de preferência, sem abrir a boca. Fingia-se bravo quando os companheiros entoavam a marcha em que advertiam, a propósito de uma nova namorada do chefe: “Casé, Casé/desta vez você não vai dar no pé/ Com a filha da velha você vai ter que se casar/Ora se vai”. Se conversasse, surpreendia com temas sobre os quais pouco se falava na época. Por exemplo, yoga e a aplicação terapêutica da música. “Só existe o eterno presente. É agora”, disse a Nilton uma vez. Daí para a música: “Quando você improvisa, não tem que pensar no que vai fazer nem no que fez. Tem que pensar no presente. Não pode pensar no compasso que foi nem no que vem, só na harmonia”.

Para longas trocas de idéias, seu interlocutor era um advogado: dr. Jackson, cujo escritório, na rua Marconi, Casé visitava esporadicamente. E para exercitar a mineiridade tinha parceria dos irmãos família Alcântara, nascidos em Uberlândia. Com um deles, Ratinho, dispensou a Perua Morfética após um baile em Fernandópolis e voltou a São Paulo de trem. Viagem de doze horas, consumidas em boa parte no restaurante. Entre conversas entrecortadas por longas pausas, olhando o cenário que se renovava lá fora, o saxofonista girava o copo com uma das mãos e o cigarro com a outra para arrematar: “Mas, porra...”

Tratava-se de um atípico chefe de conjunto. Dar ordens não era com ele. Praticar o inusitado, sim – como no almoço num restaurante de beira de estrada. Ao seu lado na mesa, o sax barítono Prequeté – um dos músicos que passaram pelo grupo – assustou-se ao vê-lo pedir ao garçom um frango inteiro para cada um.

A parte administrativa também tinha suas peculiaridades. Após os bailes tocados em São Paulo, o octeto era convocado a se dirigir ao Ponto. Lá, Casé punha o dinheiro, dobrado, no bolso da camisa dos colegas. Na direção musical, mostrava-se exigente e paternal. Quando Adylson, ainda um principiante, errava, o líder fazia expressão de desagrado, virava o sax em direção ao pianista e soprava, uma a uma, as notas do acorde. Mas não se furtava a dar dicas mais calmamente. Passou-lhe noções sobre escalas modais, abertura de acordes e apoio harmônico. Num ensaio, Adylson encheu as duas mãos para fazer o acorde mais robusto possível. Casé sentou-se ao piano e pressionou só cinco teclas.

– Tá tudo aí.

O importante, ele dizia, era pôr as coisas na cabeça, depois no instrumento. Na casa de Ratinho, na Rua dos Pirineus, chamou a atenção do baterista ao vê-lo repetir exercícios em alta velocidade:

– Ô, Rato, toca devagar que o rápido vem mais fácil.

Conhecimento técnico e teórico, segurança, inflexão, sonoridade, a tudo ele se entregava com a mesma dedicação. Era capaz de passar horas repetindo uma nota, insatisfeito com afinação e vibração, ao passo que parecia valorizar ainda mais qualidades como percepção e sensibilidade. Gostava de dividir o palco com Maguinho e Carlos Alberto especialmente por uma razão: “Vocês sabem tocar em naipe.”

Para shows, o conjunto reduzia-se a sax alto e tenor, trompete, baixo e piano. Em 1962, quando os trios já começavam a se multiplicar, Armando Aflalo produziu as Noites de Jazz do Teatro de Arena. Antes da estreia, o quinteto de Casé deu um pulo até o bar Redondo, na Ipiranga, para entornar uns conhaques. No palco, de posse dos instrumentos, Carlos Alberto observa um leve tremor nas pernas do vizinho de estante e não resiste à piada: “Ô Zé, tá tremendo?”. “Não enche o saco”, limitou-se a responder. Casé estava se livrando da influência de Paul Desmond e, inspirado em Cannonball Adderley, usava boquilha de tenor no alto. Os holofotes iluminam o grupo, e lá vem um repertório baseado em Donald Byrd, Chalie Parker e, naturalmente, Cannonball. Por dias o show foi assunto no Ponto.

Também na boate Lancaster, na Rua Augusta, o quinteto fez temporada de sucesso, em noites ecumênicas abertas por The Jet Blacks, que ganharam fama na Jovem Guarda e tinham entre os integrantes um músico formidável, o saxofonista Nestico. Mas nem tudo foram flores no tempo do conjunto. Em 63, surge para fazer um baile na Casa de Portugal um Casé azedo, que pelo primeira vez distribuiu broncas ríspidas aos colegas. Ele e Nilton por pouco não saíram aos tapas. O baixista deixou o grupo. Foi tocar com Elcio Alvarez, Ely Arcoverde, Walter Wanderlei e, finalmente, Os Vandecos, que acompanhavam a cantora Wanderléa e tinham, entre outros músicos, o pianista Viché e o guitarrista Alemão. O episódio ocorriso na Casa de Portugal logo seria superado. Nilton e Casé retomaram contado e voltaram a trabalhar juntos na gravação de peças de publicidade.

Logo de início, os estudos haviam tirado Adilson Godoy do conjunto. Mais adiante quem saiu foi Maguinho, após um baile com a orquestra de Simonetti, atração de um programa escrito por Jô Soares e Boni para a TV Excelsior. O maestro gostou e convidou-o a ficar. O dinheiro era bom. “Preciso falar com o Casé”, disse o trompetista. No dia seguinte, encontrou-se com ele perto do Ponto, no restaurante Spadoni, que servia de madrugada um brodo restaurador.

“Tem problema?”, Maguinho quis saber. E Casé, irritado: “Não tem problema nenhum”. Maguinho: “Posso acertar?” Casé, seco: “Pode.” No dia seguinte, pediu desculpas: “Ontem eu estava nervoso”. Tinha razões para isso. Maguinho o ajudava a liderar o grupo, e havia entre eles fina sintonia musical. Nem era necessário contar: olhavam-se, erguiam um pouco os instrumentos, respiravam e atacavam juntos. Oito meses depois, Simonetti foi embora para a Itália e passou a orquestra para Erlon Chaves.

Diversas foram as modificações ocorridas na formação do octeto de Casé.* Para se alinhar aos sopros veio um músico que, além de tirar um som limpo e bonito do trombone, lia com extrema facilidade. Desde Pernambuco, seu estado de origem, Severino Gomes da Silva, o Bil, ouvia falar de Casé. Igual a ele, tinha a capacidade de ouvir mais do que falar. Em silêncio, emocionava-se ao ouvir Harlem Nocturne, uma espécie de cartão de visitas do saxofonista. A cada interpretação da balada de Earle Hagen vinham surpresas, improvisos cortantes, um fraseado de amarga e bela melancolia. O público com frequência parava de dançar e se desmanchava em aplausos. Do conjunto de Casé, Bil foi para a orquestra de Carlos Piper, tão boa que, quando o maestro anunciava o sufixo dos bailes, os músicos pediam para tocar mais. Pipper morreu na França, no mesmo acidente aéreo que em 1973 matou o cantor Agostinho dos Santos.

Também os crooners foram mudando no grupo. Além de Nívea, passaram pelo grupo Denise Dumont, Gabriel e Leny Caldeira. Por último, Marli Shirley, que no palco usava vestidos longos, rodados, de tafetá ou gorgurão, com pedrarias bordadas pela mãe. Casou-se com Waltinho, irmão de Casé, e em seguida deixou a profissão iniciada aos 14 anos.


Em 63, uma gaúcha foi com o grupo a Santo André. Desinibida, falante, amiga de Adylson, estava a caminho do quarto LP, cantava bem, era firme na afinação e no balanço. A uma certa altura do baile o pianista se dirigiu ao chefe: a amiga queria dar canja. “Fale com a Marli”, foi a resposta. “Claro”, reagiu a crooner. “Quantas músicas ela quiser.” A moça cantou três e ouviu elogios dos músicos. Dois anos depois ela se tornaria um nome nacionalmente conhecido: Elis Regina. Em casa, quando se referia a cantoras, Casé citava com carinho uma carioca baixinha. “Essa sabe tudo”, ele resumia. Era Claudete Soares, apresentada a Casé por Walter Wanderley. Ex-princesinha do baião, ela se tornava uma das principais intérprete da bossa nova. Ao vê-la na Baiúca, acompanhada pelo pianista Pedrinho Mattar, o jornalista Paulo Cotrin decidiu abrir o João Sebastião Bar, na esquina da Major Sertório com Dona Veridiana, que se tornou um templo da bossa, correspondente ao Beco das Garrafas, do Rio.

O casamento de Walter Wanderley e Isaurinha Garcia estava em frangalhos. Ele e Claudete trabalhando juntos na Baiúca, conversa vai, conversa vem, e brotou uma paixão entre os dois. Walter levou-a à casa de Casé. Os três, mais o baixista Azeitona e o baterista Dirceu Medeiros, fizeram alguns shows juntos, e no disco Claudete Soares, lançado pela Mocambo em 1965, o saxofonista deixou registrados improvisos curtos e elegantes. Estão nas faixas Gente, dos irmãos Vale, e Vivo sonhando, de Jobim, em arranjos de José Antônio Alves, o Zé Bicão.

Por pouco Walter não perdeu a namorada. O Casé misterioso despertou nela um interesse jamais revelado. “Adoro gente conflitada”, derretia-se a cantora, diante de detalhes que a incendiavam. Por exemplo, os óculos dele, aqueles que, Claudete nem imaginava, Casé andou usando exclusivamente para fazer charme.


Numa das ocasiões em que Claudete substituiu Elis na apresentação de O Fino da Bossa, na TV Record, estava a cargo dele o primeiro sax alto da orquestra regida por Chiquinho de Moraes. Em Belo Horizonte, acompanhava o programa um saxofonista iniciante, Nivaldo Ornelas. Ficou quase imobilizado diante do televisor após ouvir um solo de Casé, cultuado também em outra cidade de Minas, Três Pontas, entre músicos como o pianista Wagner Tiso.

Em 67, Nivaldo e Tiso, juntos com o baterista Paulo Braga, tomaram um ônibus da Cometa e viajaram a São Paulo especialmente para ver Casé tocar. Não tiveram sorte. Foram achá-lo com a orquestra de Elly, no Avenida Danças, numa noite pouco inspirada. Mas no mesmo ano Casé esteve em Belo Horizonte, a convite do trompetista Figo, que conhecera na Europa. Ambos rumaram ao Berimbau Clube, onde, sem saber da presença ilustre, Nivaldo se apresentava. A canja do visitante foi fundamental.

– É esse som que eu quero, caramba! - pensou Nivaldo, diante daquele que seria sua primeira grande influência.

Apresentado aos músicos da cidade, Casé ouviu uma enxurrada de elogios. “Gostaram de mim? É porque vocês não conheceram meu irmão”, disse. E pediu para ser levado à zona. Era um território pelo qual ele circulava com desembaraço – inclusive tocando.

***

Finalzinho de 1962. Vitor Campbell, trombonista e trompetista, era integrante do grupo SP Som, de Campinas, que ensaiava no Jardim Itatinga, onde ficava a afamada zona de Viracopos. Convidado a fazer uma substituição na Teteia, uma boate do Itatinga, o guitarrista João Adão levou Campbell, que, ao se aproximar da casa, detectou um som de sax com uma qualidade jamais ouvida por ali.

– Peraí: esse é o Casé – reconheceu-o Vitor.

O palco, iluminado por um canhão de luz, ficava num canto da sala ampla, ocupada por poltronas vermelhas entre as quais os garçons transitavam. Na plateia, músicos da região misturavam-se às mariposas e seus clientes. Ao término da primeira entrada, Adão apresentou-o a Vitor. Foram para o bar, pediram cerveja e conhaque. Antes de voltar ao palco, ele apontou para o estojo de Vitor:

– Que que é isso?

– Trompete.

– Tira isso daí, vamos tocar.

Tocaram Minha Saudade, de João Donato e João Gilberto. Vitor voltou a semana inteira para dar canja. Casé falou sobre harmonia, encadeamento, recomendou improvisos modais e indicou métodos para leitura e execução, entre eles o JB Arban.

* Pelo grupo passaram, para se efetivar ou para simples substituições, os trompetistas Valdir Arouca e João Godoy, os saxofonistas Oreca, Prequeté, Schettini e Waltinho, irmão de Casé; os trombonistas Escovão e Azevedo, os bateristas Dirceu, Toniquinho e Arrudinha, o guitarrista João de Deus e o baixista Shioda, entre outros.

2 comentários:

Newton de Siqueira Campos disse...

A bem da verdade, esclareço que o "entrevero" que tive com o "Zé", como carinhosamente o chamavamos, ocorreu por conta de um destempero que achei, e foi, injusto, que ele teve com o Adilson Godóy, que era e é, até hoje, um amigo inclusive de pontos de vista filosóficos comuns. Contudo, embora tenha motivado minha saída daquele inesquecível grupo na ocasião, isso não significou, em absoluto, nenhuma inimizade com o músico admirável que ele era e que continuei admirando, pois, entre o fim dos anos 60 e subsequentes, como produtor de "jingles" que me tornei, tive oportunidade de convoca-lo, em incontaveis ocasiões, para gravações desses fonogramas, nos quais, junto com ele partiparam também: Mario Casali, Carlos Alberto, Baurú, Cangaceiro, Botinão, Bolão, Dorimar, o próprio Maguinho, Azevedo, Paiolleti, Papudinho, Renato Cauchioli, Lambarí e muitos outros músicos fabulosos. Não sei se lhe reportei esse fato, mas, uns dois ou tres meses antes de sua morte, estive com ele, não me lembro se no apartamento da irmã, porém recordo que foi no Cambucí, e chegamos a lembrar desse, então remoto, desentendimento e dele rimos como uma "bobeira" que não devia ter acontecido. Há uns anos atras, em visita ao Adilson, hoje renomado compositor, pianista, professor de música, filósofo e pai da talentosíssima cantora Adriana Godóy, recordamos esse, e outros episódios mais agradáveis dessa época, que, felizmente, foram em muito maior número. Considero que seria justo esse comentário/reparo (ou aditamento) de público, pois, a memória do Casé, assim como a de todos os grandes músicos com quem tive a felicidade de conviver, tem um significado inestimável para mim, como sabem os que me conhecem.

Newton de Siqueira Campos
newtonifyouwant@yahoo.com.br

Anônimo disse...

Obrigado, Nilton, pelos seus importantes esclarecimentos. São contribuições como essa que ajudam a lançar luz sobre a trajetória do Casé e a manter viva a memória da admirável geração de músicos brasileiros de que você faz parte.

Fernando Barros

 
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